domingo, 14 de julho de 2013

Prólogo - Noites sem luar





            Naquela noite, a terra se encontrava terrivelmente imersa em escuridão. A lua, que antes imperava os céus noturnos, escondia-se atrás do mundo. Sem luz, as trevas tornaram-se tão densas que quase se podia estender a mão ao ar e tocá-las. Nos bosques, nas montanhas, nos campos e nas florestas ...nada se ouvia, a não ser o esmagador som do silêncio. Todo o reino de Amaranth parecia prender a respiração. Era um eclipse lunar.
Abigail detestava eclipses lunares. Eles trazem um cheiro que não me agrada, ela pensava. Do lugar de onde estava, poderia enxergar toda a região, se houvesse a sorte de um pouco de luz. Quase conseguia enxergar a silhueta das Montanhas Silenciosas, e sentir a brisa do Vale de Gelo. Queria voltar logo para casa. Mas há assuntos mais urgentes para se tratar neste momento. Ao menos posso me conformar por conhecer alguém que odeia eclipses bem mais do que eu, refletiu.
 Olhou em volta, examinando o lugar novamente. Estava parada à beira das ruínas de uma sacada empoeirada e consumida pelo tempo. O piso era um mosaico de pedra gasta, com vegetação saindo de dentro das rachaduras. Cedo ou tarde, a natureza sempre encontra um caminho para tomar de volta o que uma vez a pertenceu.
Continuou andando por entre as pilastras de mármore e estátuas destruídas. Vislumbrou braços e cabeças de pedra, jogados aqui e ali. Pedaços imensos de rochas cinzentas descansavam, preguiçosamente, por todo o lugar, impedindo o acesso a alguns salões. Pareciam haver se passado eras desde que o Templo do Vento fora esquecido. Porém, a lembrança do dia em que foi obrigada a abandoná-lo permanecia em sua memória, viva como o fogo ardente que cortava o grito dos miseráveis.
Observou a paisagem pela sacada. Uma floresta de grama seca e árvores mortas definiam a memorável visão de Abigail, que se viu tomada por uma série de flashes de memória dolorosos. A imagem decrépita se desfez... contemplava agora uma floresta viva, cheia de verde e excepcionalmente fértil. Naquele dia, porém, a atmosfera que vinha do santuário de relva não era tão apreciável quanto fora na sua juventude. Ao puxar o ar para dentro dos pulmões, saudáveis e experientes, ao invés de sentir o aroma fresco de terra umedecida, era o cheiro de seu lar queimando e crepitando que invadia-lhe o olfato.
            Aquele homem, maldito seja. – recordou, pensando amargamente na criatura bestial que destruíra impiedosamente o seu lar, a sua vida e a sua família. Ou pelo menos grande parte disso. Ainda possuo um último suspiro de esperança.
            - Não é nostálgico? – Ouviu a escuridão indagá-la.
            Abigail virou-se abruptamente. Não se surpreendeu ao distinguir um vulto encapuzado, perfeitamente equilibrado no que um dia fora uma completa escultura de mármore, e que, agora, só apresentava com perfeição a forma dos seios e da cabeça de uma donzela chorosa. Estava esperando um convidado. Mesmo num templo destruído e corroído pelas faculdades do tempo, antigos encantamentos ainda se encontravam ativos. Naquele lugar, entrar sem ser convidado poderia resultar numa morte rápida, porém, absolutamente não isenta de dor.
            - Morgana... – Abigail dirigiu-lhe um olhar cansado. – Há quanto tempo está aí?
            As sombras ganharam forma, quando Morgana dirigiu-se para frente, onde as rachaduras no teto permitiam a entrada de um feixe de luz. Abrigava-se embaixo de uma capa de cor púrpura, feita de tecido grosso e adornado com espirais de ouro, levava uma fênix cosida ao peito e segurava um objeto longo e esguio na mão direita, que Abigail concluiu instantaneamente se tratar de uma vassoura. Morgana abaixou o capuz, deixando revelar a face à sua anfitriã. Seus cabelos eram castanho-claros, cor de madeira tenra. O rosto, como Abigail não pôde deixar de perceber, continuava curiosamente tão jovem quanto fora há vinte anos, mesmo exibindo suaves rugas de preocupação entre a boca e os olhos, levemente fundos, pelo insistente passar do tempo.
            - Acabo de chegar. – respondeu a convidada. – Entrei pelo Portão Norte, para evitar ser percebida.
            Assim como Abigail, Morgana fazia parte do grupo d’As Quatro. Uma bruxa para cada canto de Amaranth. Norte, Sul, Leste e Oeste. Assim foi estabelecido, desde que o reino foi erguido, há milhares de anos. Morgana era a responsável pelo Sul, e, Abigail pelo Norte. Cada uma d’As Quatro era herdeira de uma das quatro famílias principais de Amaranth. As “famílias” na verdade eram grupos de magia, e não se tratavam necessariamente de laços de sangue entre os Irmãos Ordenados, embora nada impedisse um irmão de ter seguido os passos dos pais, e assim por diante.
            Abigail então retirou o capuz, revelando seu rosto quase idoso. Tinha feições magras e cabelos tão alvos que pareciam ser feitos de finos fios de prata, que desciam até a altura dos ombros num penteado ao estilo clássico, que sugeria respeito e nobreza. Tinha os olhos grandes e expressivos, num tom de verde-folha que lembrava uma pacífica tarde de outono. Apesar de ter os olhos tranquilos, dirigia um olhar firme para Morgana.
            - Você foi seguida?
            - Estou sendo seguida desde que deixei meu castelo. – Disse Morgana.                     - Contudo, consegui despistar quem quer que fossem aqueles que estavam em meu encalço. Acham que fui para Leste, mas em pouco tempo perceberão que os enganei. Não podemos nos dar o luxo da demora aqui, minha amiga. Tive muitos pressentimentos, e, como lhe disse, também tive o sono atormentado por visões horrendas. O objeto ainda está aqui? Ainda está a salvo?
- Shhhh... – Abigail olhou em volta, desconfiada do silêncio que imperava sobre o antigo santuário. Embora não houvesse motivo algum para temer... pessoa alguma poderia adentrar as propriedades do templo sem seu consentimento. Abaixou o tom de voz cautelosamente e, por fim, anunciou:
 – Não vamos falar sobre isso aqui. Venha comigo, Irmã.
            Abigail caminhou majestosamente por entre os destroços do velho templo, com Morgana a seguindo logo atrás. Desceram empoeiradas escadas em caracol, que se encontravam quase que completamente destruídas, não fosse a força do mármore que sustentava seus alicerces. Passaram por pátios completamente desertos, nos quais há muito tempo, festejavam o aprendizado e descobertas de novas Irmãs. Quanto mais andavam, mais a escuridão as engolia, e os únicos sons que se podia ouvir era o de seus passos secos, ecoando no interior das paredes rachadas. Naquela noite, fazia frio. Não um frio comum, como sentem os camponeses ao acordarem de manhã e recolherem o abundante orvalho que era soprado durante a noite nas Plantas de Fogo. Esse era um frio quase sobrenatural, que gelava a espinha e arrepiava os pêlos da nuca. Fazia sentido, já que estavam próximas das Montanhas do Norte. Abigail não se importava com o frio, passara mais tempo no gelo do que em qualquer outro lugar. Mas havia algo ali que não lhe agradava... uma sensação ruim. Delírios de uma velha bruxa... – pensou.
            Andaram por mais um tempo, mantendo o mesmo ritmo cauteloso do início. O Templo do Vento era do tamanho de uma pequena cidade, e trazia em seu interior incontáveis corredores secretos, vielas, pátios e salões.
            - Este lugar... o conheço como conheceria meu próprio corpo. Cresci e me tornei a mulher que sou dentro destes muros destruídos. – comentou Abigail, mais para si mesma do que para sua convidada. E agora... tudo o que resta é pedra e pó.
As duas seguiram em silêncio por um caminho de pedras douradas, em forma de cabeças felinas com olhos de jade e safira que, ainda que cobertos por uma capa de poeira cinza, traziam um brilho majestoso. Caminharam pela estrada dos leões de pedra até Abigail não perceber a diferença entre o abrir e o fechar dos olhos. O salão estava imerso em breu. Apalpou a delicada corrente que levava no pescoço, até seus dedos encontrarem uma pedra lisa, do tamanho de um morango. Deixou que o calor da mão penetrasse a gema, e esta emitiu um fraco brilho azul, revelando os salões destruídos por onde passavam. Havia chumaços de grama crescendo, inútil e aleatoriamente, em meio a tamanho caos de mármore e terra sem cor.
Após alguns minutos, pararam num grande pátio de celebrações, que ainda mantinha acesas algumas tochas de Erva de Dragão, encantadas magicamente para que brilhassem e mantivessem suas chamas bruxelantes até o último suspiro de Amaranth. O pátio era um dos cômodos que se encontravam em boas condições, devido aos encantamentos usados em sua proteção. Era possível ouvir o vento urrando violentamente, como se gritasse, tentando afugentar as muralhas que rodeavam o templo, para que deixassem livre sua passagem por entre o santuário, que parecia estar perdido no tempo, uma visão surreal em meio à relva e às montanhas. Abigail olhou em volta diversas vezes, como se estivesse procurando algo. Enfim, após a longa caminhada entre labirintos secretos do templo, grandes pátios e salões rituais ricamente adornados, pararam em frente a uma parede antiga, formada por vários gomos de rocha do mar. Nada havia ali, a não ser o que sobrara de uma estátua espantosa, de uma criatura nua que retorcia o rosto em horror. Apesar da aparência feminina, em vez de uma vagina, seu ventre apresentava uma cabeça de criança maldosa, como um querubim mal intencionado. À fronte da estátua, percebia-se uma testa avantajada, adornada com cornos espiralados, e, em sua boca, havia estampado um grito aterrorizante, um grito eterno de pedra. A bruxa aproximou o colar prateado para iluminar a face estátua, e enfiou o braço cuidadosamente na boca da criatura de pedra, que a observava. Morgana seguiu o exemplo da estátua, e continuou a observar Abigail. Após remexer o membro um pouco lá dentro, esta exclamou:
            - Aqui está! – ela forçou o braço um pouco mais, e ouviu-se um sonoro “click” seguido do som de pedra fria sendo arrastada várias e várias vezes. A cabeça da criatura começou a girar lentamente, encarando as bruxas com seus olhos grandes e atormentados, até ter virado completos 360 graus, ficando com a cabeça numa posição contrária a que estava. Isso só a deixava mais aterrorizante. Houve mais um “click”, antes de a parede pesada se abrir lentamente, começando pelo meio, revelando uma escadaria que descia até as entranhas de Amaranth.
– Vamos, Irmã, siga-me.
Enquanto desciam, a luz emitida pela pedra encantada, agora nas mãos longas da bruxa, a cegava levemente. Seu brilho aumentara fortemente, um azul dançante e fantasmagórico se refletia nos cabelos de Abigail, que agora só conseguia ver o fraco brilho dos olhos quase felinos de Morgana, seguido pela respiração que se condensava no ar.
            - Aquele homem... – disse Morgana enquanto desciam as escadas – parece-me que mesmo depois de virar este templo ao avesso, não conseguiu encontrar todas as passagens secretas.
            A voz de Abigail soou cansada.
            - Não se trata de encontrar ou não. Realmente não creio que aquela passagem tenha passado despercebida, e, se não se lembra, ela é minha criação, e apenas eu seria capaz de abri-la. Ah, e Morgana...
            A bruxa do Sul manteve-se calada. Uma resposta silenciosa, como um assentimento para que Abigail pudesse prosseguir.
            - Nunca mais mencione aquele homem, se é que se pode chamar assim, na minha presença. Acho que já conversamos o bastante sobre isso.
            - Claro. – disse Morgana. – Me desculpe, eu havia esquecido.
Mas você é conhecida por ter uma memória perfeita e invejável. Por nunca esquecer um mínimo detalhe que fosse, não importa quanto tempo tenha passado...
            Continuaram descendo as escadas, com seus passos ecoando nos degraus úmidos. As profundezas do templo eram mais escuras e frias que seu exterior, e até a luz azul do pingente de Abigail parecia ser engolida pelas trevas. Por sorte havia alguns archotes presos à parede, e não foi difícil acendê-los com magia. Eles brilharam intensamente, como pequenas fogueiras azuis.
            As escadarias terminaram em frente a um imenso portão maciço, totalmente preenchido por inscrições, símbolos e runas. Uma dezena de grossas correntes encapadas com pele de dragão abraçava o portão imponente, assim como o mesmo número de cadeados incomuns, cada um com um símbolo mágico, e sem entrada para a introdução de qualquer chave. No centro, havia uma grande cobra em forma de círculo que tentava morder sua própria cauda, entalhada na pedra nua. Cada metade da cobra ocupava um lado da grande porta.
            Abigail fazia o máximo para não demorar. Estar ali trazia a sua mente toda a má sorte de lembranças ruins. Enfiou a mão dentro da capa, e tirou de lá um punhal. Desembainhou-o, revelando a lâmina prateada e adornada por minúsculos e ricos detalhes em ouro.
            - Confesso que imaginei que nunca teria que voltar aqui. – disse, enquanto deslizou de leve a lâmina do punhal na palma de sua mão. O corte foi limpo, fazendo sangue escorrer pelo pulso. A bruxa tocou o círculo de pedra no centro da porta, e desenhou um símbolo em espiral, com o próprio sangue. Quantas vidas não salvei derramando meu sangue no passado? Se pudesse, faria tudo outra vez.
            Ela se afastou, enrolando um pedaço pano na mão cortada para parar o sangramento. Esperou alguns segundos, que pareceram durar horas, até que ouviu-se um “click”, que significava que a proteção fora desativada. Então até mesmo magias antigas enferrujam.
            O “click” foi seguido por uma série de sonoros ruídos mecânicos, como engrenagens girando dentro da rocha. Os símbolos entalhados na pedra emitiram uma luz fraca. Os cadeados abriram um a um, provocando a queda das correntes. Então os grandes portões se abriram muito lentamente, rangendo e inundando todo o lugar com poeira de mil anos.
            - Então é aqui que você o escondia por todo esse tempo. – exclamou Morgana.
Do que está falando? Você mesma me ajudou a criar este lugar. – pensou Abigail, começando a perceber que algo estava errado.
            Porém mal teve tempo refletir sobre o assunto, pois assim que cruzaram os portões milenares, viu com seus próprios olhos que realmente havia algo muito errado acontecendo ali. Algo de proporções catastróficas inimagináveis.
            O salão por trás da proteção dos portões era um cubículo pequeno e vazio, exceto por um pedestal localizado no centro do cômodo. Abigail tinha a mais absoluta certeza de que quando selou os portões, há décadas atrás, havia um objeto no centro daquele mesmo pedestal... o objeto mais perigoso do mundo. Teria apostado sua vida nisso. Mas tudo o que via em sua frente, era um pedestal vazio.
            Quase não conseguiu se segurar. Por pouco não desabava sobre os joelhos.
            - D... Des... Desapareceu. – sua voz quase não saía. Mãos geladas de angústia apertavam sua garganta com toda a força.
            - Como assim? – quis saber Morgana, seu tom de voz começando a se alterar. – O que quer dizer com “desapareceu”?
            - Eu não sei! – exclamou Abigail. – Eu não sei! Não está mais aqui! Vê algo sobre o maldito pedestal?
            - Não! Mas como diabos isso foi acontecer? Então quer dizer que você, por todo esse tempo, viveu para guardar uma sala vazia?
            Silêncio.
            Aquilo deu tempo para Abigail se acalmar. É impressão minha, ou você diz isso como se eu tivesse vivido apenas para guardar o objeto?
            - Espere. Preciso pensar. – a bruxa do Norte estava começando a juntar pecinhas do quebra cabeça. – Como é possível alguém ter invadido minha sala secreta, se apenas eu posso abri-la?
            Começou a caminhar de um lado para o outro.
            - É melhor descobrir, pois alguém o fez. – disse a bruxa do Sul.
            - Não há meio de entrar aqui, a não ser pelo meu sangue. – Abigail se recompôs. Cada informação preenchia cada vez mais o quebra-cabeça, mas haviam peças demais.
            - Então se não foi você... – Morgana começou a concluir... As chamas azuis dos archotes faziam sombras dançarem em seu rosto de maneira perturbadora. Logo em seguida, seu rosto se iluminou de esclarecimento.
            Abigail não era tola. Morgana chegara a uma conclusão antes dela. Se era uma conclusão boa ou má, só restava esperar. Seu coração estava acelerando. Algo vem vindo... se eu não me preparar...
            - Abigail... – perguntou Morgana, bem lentamente. – Quem mais sabe que o objeto estava escondido neste lugar?
            Apenas nós duas, mas por que você me perguntaria isso? Você sabe. Você insistiu para que eu não contasse para ninguém. A não ser que...
            A bruxa do Norte ergueu os olhos, enxergando Morgana de verdade pela primeira vez, desde que ela chegara. Examinou cada detalhe de seu rosto, de suas vestes, de sua postura. Por que continuava tão jovem, se tinham quase a mesma idade? Por que sua invejável memória lhe falhara tantas vezes nesse dia? E principalmente...
            - Morgana... – perguntou Abigail, com cautela, sentindo o corpo ficar tenso. Seu coração batia centenas de vezes por segundo. – Por que seus olhos estão negros, se eles na verdade são lilases?
            A velha já sabe. – Morgana sorriu.
            - Pensei que nunca fosse notar. – com um movimento, fez labaredas de fogo brotarem do chão, envolvendo completamente Abigail. Deixou queimar por algum tempo, para ter certeza de que estava morta.
            Porém antes que fizesse o fogo cessar, o local onde Abigail estava explodiu com a fúria do vento, extinguindo as chamas. A bruxa do Norte não esperou para saber qual seria o próximo movimento de Morgana. Já se libertara tocando o chão, sua magia pulsando pelo mármore, fazendo com que correntes de pedra emergissem de onde havia tocado e amarrassem todo o corpo de Morgana, quase que criando a forma de um casulo. A bruxa do Sul despencou no chão, seu corpo totalmente imobilizado. Abigail agora estava em frente à sua convidada. Seus cabelos e suas vestes farfalhavam com o vento, que parecia rugir, como se aguardasse a ordem de sua mestra.
            - Até que para uma velha acabada, você não está nem um pouco enferrujada. – disse a pessoa à sua frente, com um sorriso quase psicótico.
            Abigail apertou mais as correntes, até o rosto da mulher se contorcer de dor.
            - Quem é você?
            - Morgana. – agora ela a encarava com ódio.
            - Vou perguntar mais uma vez. – disse Abigail, desprovida de emoção. Apertou as correntes um pouco mais. Se continuasse assim, mataria a mulher.
            - Não lembra mesmo de mim, Sully? – o rosto da mulher se desfez, como cera sendo derretida, revelando uma nova face. Os cabelos antes castanho-claros, adquiriram uma tonalidade de negro, quase azul. As feições jovens de uma Morgana de 20 anos atrás desfizeram-se... continuaram jovens, porém muito diferentes. Abigail reconheceu imediatamente aquele rosto. Sentiu-se mais confusa.
            - Você... –
            Não chegou a concluir a frase. Foi atingida por algo rápido e afiado. Olhou para o peito, e viu que estava atravessada por uma lâmina negra. Sangue quente jorrava da ferida e empapava a capa. Alguém a apunhalara pelas costas.
            Tentou olhar para trás, na procura de quem fizera isso, mas subitamente perdeu todas as forças, e caiu no chão, não deitada, mas de joelhos. A lâmina foi retirada de suas costas. Dor se espalhou por todo o seu corpo como fogo queimando palha. O que acabara de acontecer ali?
            - Podia ter demorado menos, a mulher é forte. – a voz vinha da mulher que há poucos momentos se intitulara Morgana, mas já não era a voz da Bruxa do Sul. Ela havia conseguido se libertar das correntes de Abigail, e agora estava de pé, limpando a poeira das vestes.
            - Ora, sabe que eu odiaria ter interrompido sua performance. – disse a outra voz. Abigail conseguiu ver, vinha de um vulto encapuzado, negro como as sombras. – Atuou bem. Ah se o fez.
            - Q... Quem... Quem... – sangue começou a vazar pela boca de Abigail. Se fosse morrer, queria saber quem a matou. O encapuzado levantou as mãos como em gesto de defesa.
            - Ah, claro, mas que indelicadeza a minha. – e retirou o capuz, revelando o rosto. Era um homem. Abigail nunca o tinha visto na vida, mesmo que seu rosto fosse estranhamente familiar. – Certamente que você me conhece, embora eu não seja muito querido.
            O homem revelou seu nome, e para Abigail, aquilo não fazia sentido algum. Era impossível, totalmente impossível e fora de cogitações racionais que ele fosse quem disse que era. Sua mente girava em um turbilhão. Agora entendia tudo. Aquela mulher não é nem nunca foi Morgana. Fora atraída para uma armadilha. E se o homem realmente fosse quem afirmava ser...
            Olhou para a falsa bruxa do Sul. Tentou falar, mas seus esforços apenas eram recompensados com mais sangue em sua garganta.
            - Por que? – foi tudo o que conseguiu dizer.
            A mulher sorriu, como se gostasse da pergunta. Caminhou lentamente até Abigail, se agachou, tão próxima de seu rosto que Abigail podia sentir sua respiração. Afastou os cabelos brancos da orelha da bruxa, num gesto quase carinhoso e sussurrou.
            - Zerbst. – aquilo fez os olhos de Abigail se arregalarem, e seu corpo foi tomado por um horror massivo, sem igual. – E agora que já sei onde está nosso tão estimado objeto, não me importaria de busca-lo.
            Aquelas palavras completaram as últimas peças do quebra-cabeça.
            - NÃO! – exclamou a fraca e quase morta Abigail. Num último esforço, reuniu toda sua força, conseguindo materializar um ser de aura azul, imaterial, que galopou pelo salão em direção à superfície, atravessando as paredes e escapando pela noite.

            Em seguida se incinerou, sendo consumida pelas próprias chamas. Sabia o que queriam. Sabia que precisariam de seu corpo. Não o terão. Aquele teria sido o último feito de uma bruxa lendária. Morreu pensando em seu último suspiro de esperança. Por favor, chegue a tempo.

4 comentários:

  1. Então em algumas partes me fez "vijar" nesse mundo novo, tentando criar o cenagio que voc pensou em minha meste,imaginando cada detalhe do templo em questao o que remete a uma boa descriçao do ambiente.
    Só tome cuidado que em algumas falas dos personagens eu reparei algumas expressoes tipicas suas, e nao sei se é o caso de ser tambem dos seus personagens.
    Mas de uma maneira geral a leitura desse prólogo me faz querer continuar a leitura do livro, pelo interresse que surgiu pela historia criada.

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    1. Oh, primeiramente vlw xD
      Então, muita gente pediu pra que eu detalhasse mais tanto o ambiente quanto (e principalmente) os personagens... parece que deu certo u.u
      Defina "expressões típicas suas" u.u

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  2. Tomara que vc continue a escrever ^.^~

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    1. O progresso da historia ta realmente meio parado... acho que nessas ferias animo pra continuar escrevendo D:

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