Naquela noite, a terra se encontrava terrivelmente imersa em
escuridão. A lua, que antes imperava os céus noturnos, escondia-se atrás do
mundo. Sem luz, as trevas tornaram-se tão densas que quase se podia estender a
mão ao ar e tocá-las. Nos bosques, nas montanhas, nos campos e nas florestas
...nada se ouvia, a não ser o esmagador som do silêncio. Todo o reino de
Amaranth parecia prender a respiração. Era um eclipse lunar.
Abigail detestava eclipses lunares. Eles trazem um cheiro que não me agrada,
ela pensava. Do lugar de onde estava, poderia enxergar toda a região, se
houvesse a sorte de um pouco de luz. Quase conseguia enxergar a silhueta das
Montanhas Silenciosas, e sentir a brisa do Vale de Gelo. Queria voltar logo
para casa. Mas há assuntos mais urgentes
para se tratar neste momento. Ao menos posso me conformar por conhecer alguém
que odeia eclipses bem mais do que eu, refletiu.
Olhou em volta, examinando o lugar novamente.
Estava parada à beira das ruínas de uma sacada empoeirada e consumida pelo
tempo. O piso era um mosaico de pedra gasta, com vegetação saindo de dentro das
rachaduras. Cedo ou tarde, a natureza
sempre encontra um caminho para tomar de volta o que uma vez a pertenceu.
Continuou andando por entre as
pilastras de mármore e estátuas destruídas. Vislumbrou braços e cabeças de
pedra, jogados aqui e ali. Pedaços imensos de rochas cinzentas descansavam,
preguiçosamente, por todo o lugar, impedindo o acesso a alguns salões. Pareciam
haver se passado eras desde que o Templo do Vento fora esquecido. Porém, a
lembrança do dia em que foi obrigada a abandoná-lo permanecia em sua memória, viva
como o fogo ardente que cortava o grito dos miseráveis.
Observou a
paisagem pela sacada. Uma floresta de grama seca e árvores mortas definiam a
memorável visão de Abigail, que se viu tomada por uma série de flashes de
memória dolorosos. A imagem decrépita se desfez... contemplava agora uma
floresta viva, cheia de verde e excepcionalmente fértil. Naquele dia, porém, a
atmosfera que vinha do santuário de relva não era
tão apreciável quanto fora na sua juventude. Ao puxar o ar para dentro dos pulmões,
saudáveis e experientes, ao invés de sentir o aroma fresco de terra umedecida,
era o cheiro de seu lar queimando e crepitando que invadia-lhe o olfato.
Aquele homem,
maldito seja. – recordou, pensando amargamente na criatura bestial que
destruíra impiedosamente o seu lar, a sua vida e a sua família. Ou pelo menos grande parte disso. Ainda
possuo um último suspiro de esperança.
- Não é nostálgico? – Ouviu a escuridão indagá-la.
Abigail virou-se abruptamente. Não se surpreendeu ao
distinguir um vulto encapuzado, perfeitamente equilibrado no que um dia fora
uma completa escultura de mármore, e que, agora, só apresentava com perfeição a
forma dos seios e da cabeça de uma donzela chorosa. Estava esperando um
convidado. Mesmo num templo destruído e corroído pelas faculdades do tempo,
antigos encantamentos ainda se encontravam ativos. Naquele lugar, entrar sem
ser convidado poderia resultar numa morte rápida, porém, absolutamente não
isenta de dor.
- Morgana... – Abigail dirigiu-lhe um olhar cansado. – Há
quanto tempo está aí?
As
sombras ganharam forma, quando Morgana dirigiu-se para frente, onde as
rachaduras no teto permitiam a entrada de um feixe de luz. Abrigava-se embaixo
de uma capa de cor púrpura, feita de tecido grosso e adornado com espirais de ouro, levava uma
fênix cosida ao peito e segurava um objeto longo e esguio na mão direita, que Abigail concluiu
instantaneamente se tratar de uma vassoura. Morgana abaixou o capuz, deixando revelar a face à sua anfitriã.
Seus cabelos eram castanho-claros, cor de madeira tenra. O rosto, como Abigail
não pôde deixar de perceber, continuava curiosamente tão jovem quanto fora há
vinte anos, mesmo exibindo suaves rugas de preocupação entre a boca e os olhos,
levemente fundos, pelo insistente passar do tempo.
- Acabo de
chegar. – respondeu a convidada. – Entrei pelo Portão Norte, para evitar ser percebida.
Assim como
Abigail, Morgana fazia parte do grupo d’As Quatro. Uma bruxa para cada canto de
Amaranth. Norte, Sul, Leste e Oeste. Assim foi estabelecido, desde que o reino
foi erguido, há milhares de anos. Morgana era a responsável pelo Sul, e, Abigail
pelo Norte. Cada uma d’As Quatro era herdeira de uma das quatro famílias
principais de Amaranth. As “famílias” na verdade eram grupos de magia, e não se
tratavam necessariamente de laços de sangue entre os Irmãos Ordenados, embora
nada impedisse um irmão de ter seguido os passos dos pais, e assim por diante.
Abigail
então retirou o capuz, revelando seu rosto quase idoso. Tinha feições magras e
cabelos tão alvos que pareciam ser feitos de finos fios de prata, que desciam
até a altura dos ombros num penteado ao estilo clássico, que sugeria respeito e
nobreza. Tinha os olhos grandes e expressivos, num tom de verde-folha que
lembrava uma pacífica tarde de outono. Apesar de ter os olhos tranquilos,
dirigia um olhar firme para Morgana.
- Você foi
seguida?
- Estou sendo
seguida desde que deixei meu castelo. – Disse Morgana. - Contudo, consegui
despistar quem quer que fossem aqueles que estavam em meu encalço. Acham que
fui para Leste, mas em pouco tempo perceberão que os enganei. Não podemos nos dar
o luxo da demora aqui, minha amiga. Tive muitos pressentimentos, e, como lhe
disse, também tive o sono atormentado por visões horrendas. O objeto ainda está
aqui? Ainda está a salvo?
- Shhhh... – Abigail olhou em volta,
desconfiada do silêncio que imperava sobre o antigo santuário. Embora não
houvesse motivo algum para temer... pessoa alguma poderia adentrar as
propriedades do templo sem seu consentimento. Abaixou o tom de voz
cautelosamente e, por fim, anunciou:
– Não vamos falar sobre isso aqui. Venha
comigo, Irmã.
Abigail
caminhou majestosamente por entre os destroços do velho templo, com Morgana a
seguindo logo atrás. Desceram empoeiradas escadas em caracol, que se
encontravam quase que completamente destruídas, não fosse a força do mármore
que sustentava seus alicerces. Passaram por pátios completamente desertos, nos
quais há muito tempo, festejavam o aprendizado e descobertas de novas Irmãs.
Quanto mais andavam, mais a escuridão as engolia, e os únicos sons que se podia
ouvir era o de seus passos secos, ecoando no interior das paredes rachadas.
Naquela noite, fazia frio. Não um frio comum, como sentem os camponeses ao
acordarem de manhã e recolherem o abundante orvalho que era soprado durante a
noite nas Plantas de Fogo. Esse era um frio quase sobrenatural, que gelava a
espinha e arrepiava os pêlos da nuca. Fazia sentido, já que estavam próximas
das Montanhas do Norte. Abigail não se importava com o frio, passara mais tempo
no gelo do que em qualquer outro lugar. Mas havia algo ali que não lhe agradava...
uma sensação ruim. Delírios de uma velha
bruxa... – pensou.
Andaram por
mais um tempo, mantendo o mesmo ritmo cauteloso do início. O Templo do Vento
era do tamanho de uma pequena cidade, e trazia em seu interior incontáveis
corredores secretos, vielas, pátios e salões.
- Este
lugar... o conheço como conheceria meu próprio corpo. Cresci e me tornei a
mulher que sou dentro destes muros destruídos. – comentou Abigail, mais para si
mesma do que para sua convidada. E
agora... tudo o que resta é pedra e pó.
As duas seguiram em silêncio por um
caminho de pedras douradas, em forma de cabeças felinas com olhos de jade e
safira que, ainda que cobertos por uma capa de poeira cinza, traziam um brilho
majestoso. Caminharam pela estrada dos leões de pedra até Abigail não perceber
a diferença entre o abrir e o fechar dos olhos. O salão estava imerso em breu.
Apalpou a delicada corrente que levava no pescoço, até seus dedos encontrarem uma
pedra lisa, do tamanho de um morango. Deixou que o calor da mão penetrasse a
gema, e esta emitiu um fraco brilho azul, revelando os salões destruídos por
onde passavam. Havia chumaços de grama crescendo, inútil e aleatoriamente, em meio
a tamanho caos de mármore e terra sem cor.
Após alguns minutos, pararam num grande
pátio de celebrações, que ainda mantinha acesas algumas tochas de Erva de
Dragão, encantadas magicamente para que brilhassem e mantivessem suas chamas
bruxelantes até o último suspiro de Amaranth. O pátio era um dos cômodos que se
encontravam em boas condições, devido aos encantamentos usados em sua proteção.
Era possível ouvir o vento urrando violentamente, como se gritasse, tentando
afugentar as muralhas que rodeavam o templo, para que deixassem livre sua
passagem por entre o santuário, que parecia estar perdido no tempo, uma visão
surreal em meio à relva e às montanhas. Abigail olhou em volta diversas vezes,
como se estivesse procurando algo. Enfim, após a longa caminhada entre
labirintos secretos do templo, grandes pátios e salões rituais ricamente
adornados, pararam em frente a uma parede antiga, formada por vários gomos de
rocha do mar. Nada havia ali, a não ser o que sobrara de uma estátua espantosa,
de uma criatura nua que retorcia o rosto em horror. Apesar da aparência
feminina, em vez de uma vagina, seu ventre apresentava uma cabeça de criança
maldosa, como um querubim mal intencionado. À fronte da estátua, percebia-se
uma testa avantajada, adornada com cornos espiralados, e, em sua boca, havia
estampado um grito aterrorizante, um grito eterno de pedra. A bruxa aproximou o
colar prateado para iluminar a face estátua, e enfiou o braço cuidadosamente na
boca da criatura de pedra, que a observava. Morgana seguiu o exemplo da
estátua, e continuou a observar Abigail. Após remexer o membro um pouco lá
dentro, esta exclamou:
- Aqui está!
– ela forçou o braço um pouco mais, e ouviu-se um sonoro “click” seguido do som
de pedra fria sendo arrastada várias e várias vezes. A cabeça da criatura começou
a girar lentamente, encarando as bruxas com seus olhos grandes e atormentados,
até ter virado completos 360 graus, ficando com a cabeça numa posição contrária
a que estava. Isso só a deixava mais aterrorizante. Houve mais um “click”,
antes de a parede pesada se abrir lentamente, começando pelo meio, revelando
uma escadaria que descia até as entranhas de Amaranth.
– Vamos, Irmã, siga-me.
Enquanto desciam, a luz emitida pela
pedra encantada, agora nas mãos longas da bruxa, a cegava levemente. Seu brilho
aumentara fortemente, um azul dançante e fantasmagórico se refletia nos cabelos
de Abigail, que agora só conseguia ver o fraco brilho dos olhos quase felinos
de Morgana, seguido pela respiração que se condensava no ar.
- Aquele
homem... – disse Morgana enquanto desciam as escadas – parece-me que mesmo
depois de virar este templo ao avesso, não conseguiu encontrar todas as
passagens secretas.
A voz de
Abigail soou cansada.
- Não se
trata de encontrar ou não. Realmente não creio que aquela passagem tenha
passado despercebida, e, se não se lembra, ela é minha criação, e apenas eu
seria capaz de abri-la. Ah, e Morgana...
A bruxa do
Sul manteve-se calada. Uma resposta silenciosa, como um assentimento para que
Abigail pudesse prosseguir.
- Nunca mais
mencione aquele homem, se é que se pode chamar assim, na minha presença. Acho
que já conversamos o bastante sobre isso.
- Claro. –
disse Morgana. – Me desculpe, eu havia esquecido.
Mas você é conhecida
por ter uma memória perfeita e invejável. Por nunca esquecer um mínimo detalhe
que fosse, não importa quanto tempo tenha passado...
Continuaram
descendo as escadas, com seus passos ecoando nos degraus úmidos. As profundezas
do templo eram mais escuras e frias que seu exterior, e até a luz azul do
pingente de Abigail parecia ser engolida pelas trevas. Por sorte havia alguns
archotes presos à parede, e não foi difícil acendê-los com magia. Eles
brilharam intensamente, como pequenas fogueiras azuis.
As escadarias
terminaram em frente a um imenso portão maciço, totalmente preenchido por inscrições,
símbolos e runas. Uma dezena de grossas correntes encapadas com pele de dragão
abraçava o portão imponente, assim como o mesmo número de cadeados incomuns,
cada um com um símbolo mágico, e sem entrada para a introdução de qualquer
chave. No centro, havia uma grande cobra em forma de círculo que tentava morder
sua própria cauda, entalhada na pedra nua. Cada metade da cobra ocupava um lado
da grande porta.
Abigail
fazia o máximo para não demorar. Estar ali trazia a sua mente toda a má sorte
de lembranças ruins. Enfiou a mão dentro da capa, e tirou de lá um punhal.
Desembainhou-o, revelando a lâmina prateada e adornada por minúsculos e ricos
detalhes em ouro.
- Confesso
que imaginei que nunca teria que voltar aqui. – disse, enquanto deslizou de
leve a lâmina do punhal na palma de sua mão. O corte foi limpo, fazendo sangue
escorrer pelo pulso. A bruxa tocou o círculo de pedra no centro da porta, e
desenhou um símbolo em espiral, com o próprio sangue. Quantas vidas não salvei derramando meu sangue no passado? Se pudesse,
faria tudo outra vez.
Ela se
afastou, enrolando um pedaço pano na mão cortada para parar o sangramento.
Esperou alguns segundos, que pareceram durar horas, até que ouviu-se um
“click”, que significava que a proteção fora desativada. Então até mesmo magias antigas enferrujam.
O “click”
foi seguido por uma série de sonoros ruídos mecânicos, como engrenagens girando
dentro da rocha. Os símbolos entalhados na pedra emitiram uma luz fraca. Os
cadeados abriram um a um, provocando a queda das correntes. Então os grandes
portões se abriram muito lentamente, rangendo e inundando todo o lugar com
poeira de mil anos.
- Então é
aqui que você o escondia por todo esse tempo. – exclamou Morgana.
Do que está falando?
Você mesma me ajudou a criar este lugar. – pensou Abigail, começando a perceber que algo estava
errado.
Porém mal
teve tempo refletir sobre o assunto, pois assim que cruzaram os portões
milenares, viu com seus próprios olhos que realmente havia algo muito errado
acontecendo ali. Algo de proporções catastróficas inimagináveis.
O salão por
trás da proteção dos portões era um cubículo pequeno e vazio, exceto por um
pedestal localizado no centro do cômodo. Abigail tinha a mais absoluta certeza
de que quando selou os portões, há décadas atrás, havia um objeto no centro
daquele mesmo pedestal... o objeto mais perigoso do mundo. Teria apostado sua
vida nisso. Mas tudo o que via em sua frente, era um pedestal vazio.
Quase não
conseguiu se segurar. Por pouco não desabava sobre os joelhos.
- D...
Des... Desapareceu. – sua voz quase não saía. Mãos geladas de angústia
apertavam sua garganta com toda a força.
- Como
assim? – quis saber Morgana, seu tom de voz começando a se alterar. – O que
quer dizer com “desapareceu”?
- Eu não
sei! – exclamou Abigail. – Eu não sei! Não está mais aqui! Vê algo sobre o
maldito pedestal?
- Não! Mas
como diabos isso foi acontecer? Então quer dizer que você, por todo esse tempo,
viveu para guardar uma sala vazia?
Silêncio.
Aquilo deu
tempo para Abigail se acalmar. É
impressão minha, ou você diz isso como se eu tivesse vivido apenas para guardar
o objeto?
- Espere.
Preciso pensar. – a bruxa do Norte estava começando a juntar pecinhas do quebra
cabeça. – Como é possível alguém ter invadido minha sala secreta, se apenas eu
posso abri-la?
Começou a
caminhar de um lado para o outro.
- É melhor
descobrir, pois alguém o fez. – disse a bruxa do Sul.
- Não há
meio de entrar aqui, a não ser pelo meu sangue. – Abigail se recompôs. Cada
informação preenchia cada vez mais o quebra-cabeça, mas haviam peças demais.
- Então se
não foi você... – Morgana começou a concluir... As chamas azuis dos archotes
faziam sombras dançarem em seu rosto de maneira perturbadora. Logo em seguida,
seu rosto se iluminou de esclarecimento.
Abigail não
era tola. Morgana chegara a uma conclusão antes dela. Se era uma conclusão boa
ou má, só restava esperar. Seu coração estava acelerando. Algo vem vindo... se eu não me preparar...
- Abigail...
– perguntou Morgana, bem lentamente. – Quem mais sabe que o objeto estava
escondido neste lugar?
Apenas nós duas, mas por que você me
perguntaria isso? Você sabe. Você insistiu para que eu não contasse para
ninguém. A não ser que...
A bruxa do Norte ergueu os olhos, enxergando Morgana de verdade pela
primeira vez, desde que ela chegara. Examinou cada detalhe de seu rosto, de
suas vestes, de sua postura. Por que continuava tão jovem, se tinham quase a
mesma idade? Por que sua invejável memória lhe falhara tantas vezes nesse dia?
E principalmente...
- Morgana...
– perguntou Abigail, com cautela, sentindo o corpo ficar tenso. Seu coração
batia centenas de vezes por segundo. – Por que seus olhos estão negros, se eles
na verdade são lilases?
A velha já sabe. – Morgana sorriu.
- Pensei que
nunca fosse notar. – com um movimento, fez labaredas de fogo brotarem do chão,
envolvendo completamente Abigail. Deixou queimar por algum tempo, para ter
certeza de que estava morta.
Porém antes
que fizesse o fogo cessar, o local onde Abigail estava explodiu com a fúria do
vento, extinguindo as chamas. A bruxa do Norte não esperou para saber qual
seria o próximo movimento de Morgana. Já se libertara tocando o chão, sua magia
pulsando pelo mármore, fazendo com que correntes de pedra emergissem de onde
havia tocado e amarrassem todo o corpo de Morgana, quase que criando a forma de
um casulo. A bruxa do Sul despencou no chão, seu corpo totalmente imobilizado.
Abigail agora estava em frente à sua convidada. Seus cabelos e suas vestes
farfalhavam com o vento, que parecia rugir, como se aguardasse a ordem de sua
mestra.
- Até que
para uma velha acabada, você não está nem um pouco enferrujada. – disse a
pessoa à sua frente, com um sorriso quase psicótico.
Abigail
apertou mais as correntes, até o rosto da mulher se contorcer de dor.
- Quem é
você?
- Morgana. –
agora ela a encarava com ódio.
- Vou
perguntar mais uma vez. – disse Abigail, desprovida de emoção. Apertou as
correntes um pouco mais. Se continuasse assim, mataria a mulher.
- Não lembra
mesmo de mim, Sully? – o rosto da mulher se desfez, como cera sendo derretida,
revelando uma nova face. Os cabelos antes castanho-claros, adquiriram uma
tonalidade de negro, quase azul. As feições jovens de uma Morgana de 20 anos
atrás desfizeram-se... continuaram jovens, porém muito diferentes. Abigail
reconheceu imediatamente aquele rosto. Sentiu-se mais confusa.
- Você... –
Não chegou a
concluir a frase. Foi atingida por algo rápido e afiado. Olhou para o peito, e
viu que estava atravessada por uma lâmina negra. Sangue quente jorrava da
ferida e empapava a capa. Alguém a apunhalara pelas costas.
Tentou olhar
para trás, na procura de quem fizera isso, mas subitamente perdeu todas as
forças, e caiu no chão, não deitada, mas de joelhos. A lâmina foi retirada de
suas costas. Dor se espalhou por todo o seu corpo como fogo queimando palha. O
que acabara de acontecer ali?
- Podia ter
demorado menos, a mulher é forte. – a voz vinha da mulher que há poucos
momentos se intitulara Morgana, mas já não era a voz da Bruxa do Sul. Ela havia
conseguido se libertar das correntes de Abigail, e agora estava de pé, limpando
a poeira das vestes.
- Ora, sabe
que eu odiaria ter interrompido sua performance. – disse a outra voz. Abigail
conseguiu ver, vinha de um vulto encapuzado, negro como as sombras. – Atuou
bem. Ah se o fez.
- Q...
Quem... Quem... – sangue começou a vazar pela boca de Abigail. Se fosse morrer,
queria saber quem a matou. O encapuzado levantou as mãos como em gesto de
defesa.
- Ah, claro,
mas que indelicadeza a minha. – e retirou o capuz, revelando o rosto. Era um
homem. Abigail nunca o tinha visto na vida, mesmo que seu rosto fosse
estranhamente familiar. – Certamente que você me conhece, embora eu não seja
muito querido.
O homem revelou
seu nome, e para Abigail, aquilo não fazia sentido algum. Era impossível,
totalmente impossível e fora de cogitações racionais que ele fosse quem disse
que era. Sua mente girava em um turbilhão. Agora entendia tudo. Aquela mulher
não é nem nunca foi Morgana. Fora atraída para uma armadilha. E se o homem
realmente fosse quem afirmava ser...
Olhou para a
falsa bruxa do Sul. Tentou falar, mas seus esforços apenas eram recompensados
com mais sangue em sua garganta.
- Por que? –
foi tudo o que conseguiu dizer.
A mulher
sorriu, como se gostasse da pergunta. Caminhou lentamente até Abigail, se
agachou, tão próxima de seu rosto que Abigail podia sentir sua respiração.
Afastou os cabelos brancos da orelha da bruxa, num gesto quase carinhoso e
sussurrou.
- Zerbst. –
aquilo fez os olhos de Abigail se arregalarem, e seu corpo foi tomado por um
horror massivo, sem igual. – E agora que já sei onde está nosso tão estimado
objeto, não me importaria de busca-lo.
Aquelas
palavras completaram as últimas peças do quebra-cabeça.
- NÃO! –
exclamou a fraca e quase morta Abigail. Num último esforço, reuniu toda sua
força, conseguindo materializar um ser de aura azul, imaterial, que galopou
pelo salão em direção à superfície, atravessando as paredes e escapando pela
noite.
Em seguida
se incinerou, sendo consumida pelas próprias chamas. Sabia o que queriam. Sabia
que precisariam de seu corpo. Não o
terão. Aquele teria sido o último feito de uma bruxa lendária. Morreu
pensando em seu último suspiro de esperança. Por favor, chegue a tempo.

Então em algumas partes me fez "vijar" nesse mundo novo, tentando criar o cenagio que voc pensou em minha meste,imaginando cada detalhe do templo em questao o que remete a uma boa descriçao do ambiente.
ResponderExcluirSó tome cuidado que em algumas falas dos personagens eu reparei algumas expressoes tipicas suas, e nao sei se é o caso de ser tambem dos seus personagens.
Mas de uma maneira geral a leitura desse prólogo me faz querer continuar a leitura do livro, pelo interresse que surgiu pela historia criada.
Oh, primeiramente vlw xD
ExcluirEntão, muita gente pediu pra que eu detalhasse mais tanto o ambiente quanto (e principalmente) os personagens... parece que deu certo u.u
Defina "expressões típicas suas" u.u
Tomara que vc continue a escrever ^.^~
ResponderExcluirO progresso da historia ta realmente meio parado... acho que nessas ferias animo pra continuar escrevendo D:
Excluir